sexta-feira, 13 de junho de 2014

Excesso de controle dos pais pode deixar as crianças com tédio

Em entrevista exclusiva à CRESCER, psicóloga da USP explica que é preciso melhorar alguns aspectos da rotina para motivar seu filho a brincar

tédio; entediado; ansiedade; depressão; tristeza; criança (Foto: Thinkstock)
Se o seu filho anda sem disposição, desmotivado ou sem interesse em fazer as atividades no dia a dia, cuidado: você pode ser o causador disso. Uma pesquisa desenvolvida no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo mostrou que o excesso de controle e a superproteção dos adultos são a principal causa de apatia, falta de espontaneidade e tédio na infância.
O estudo envolveu uma avaliação da rotina e do comportamento de 30 crianças, entre 5 e 7 anos, de famílias paulistanas de alto de alto poder aquisitivo. Além de estudarem no mesmo colégio bilíngue, todas convivem com pelo menos um funcionário da família (empregada, babá e/ou motorista), fazem viagens para dentro e fora do Brasil, comemoram o aniversário com festa e fazem passeios aos finais de semana. Nas famílias que não tinham uma babá para ajudar a cuidar da criança, a mãe trabalhava meio período e contava com o apoio de uma empregada. O superagendamento das crianças pode ser explicado por dois fatores. O primeiro é a questão de segurança, afinal, entende-se que, em um curso, a criança está num local seguro e sob a responsabilidade de um profissional especializado. O segundo, e principal, é apontado por Clarice como a preocupação dos pais em garantir um futuro promissor e bem sucedido para os filhos. Com isso, vem a idade do “quanto antes, melhor”. “Eles querem antecipar conteúdos, por exemplo, a criança ser alfabetizada com três ou quatro anos, fazer cursos de um segundo ou terceiro idioma antes dos seis, praticar esportes intensivos”, diz.“Notei dois pontos bem fortes: maior facilidade no consumo de bens, que muitas vezes aparece como atenuante da culpa pela ausência na vida do filho enquanto estão no trabalho, e a prática de uma atividade extracurricular. A maioria fazia pelo menos duas, algumas três”, conta a psicóloga e psicopedagoga Clarice Kunsch, autora do estudo.
O tédio
Tudo o que foi descrito acima pode ser visto como uma tendência da maioria das famílias com o mesmo padrão de vida das analisadas na pesquisa. O impacto disso num futuro distante é difícil prever, mas em curto prazo já dá para dizer que o excesso de tarefas pode deixar a criança esgotada mentalmente e sem tempo para criar e imaginar
Como consequência disso, vem o que a pesquisadora chama de sinais de vivência de tédio, ou seja, apatia, desinteresse, falta de iniciativa, de motivação, do “brilho no olhar”, de encantamento com as coisas mais simples, como, por exemplo, uma joaninha. Portanto, se seu filho não vai brincar quando solicitado, se há falta de iniciativa para agir, não há interesse por filmes ou livros típicos do universo infantil ou fica à espera de um adulto para lhe dizer o que fazer, pode ser sinal de tédio.
felicidade; brincadeira; brincar; ar livre; amigos; diversão (Foto: Thinkstock)
A boa notícia é que combater o aparecimento dessa apatia não é difícil, embora requer reestruturação das prioridades da família, como ensina a psicóloga: “Acredito que os pais devam primeiramente ver como a vida da criança está sendo ocupada: excessos definitivamente não fazem bem. Fazendo coisas demais, as crianças têm dificuldade em lidar com as próprias vidas. Falta espontaneidade, criatividade e alegria. E tudo isso compromete o desenvolvimento saudável da criança em todos os aspectos: físico, emocional, intelectual e moral. Não se deve forçar conteúdos para tentar pular etapas. O tempo de cada criança precisa ser respeitado”.
Sim, a gente sabe que outro idioma é mais do que necessário para o seu filho no futuro. Mas não é por isso que você precisa matriculá-lo já na escola. Quanto às atividades físicas, a especialista alerta que elas também devem ser ponderadas. O melhor é a criança fazer atividades poliesportivas, em vez de treinar movimentos repetitivos, como tênis e futebol.
Os cursos mais lúdicos ou oficinas de artes são boas dicas de atividades extracurriculares, já que trabalham mais com prazer e menos com obrigação. Porém, a pesquisadora ressalta que eles são muito diferentes de brincar livremente. “Ela explora o mundo de outra forma quando brinca, interage com outras crianças, com a natureza, cria sem a mediação do adulto. Por isso, esses momentos devem predominar na rotina da criança”, aconselha Clarice.
Nada substitui a convivência 
A pesquisa da USP chamou a atenção para outro ponto que estimula o tédio: o excesso dos bens materiais. Quando Clarice perguntou para as crianças o que as deixavam mais felizes, todas responderam algo ligado à presença de pessoas. ‘Gosto quando meus amigos estão em casa’, ‘quando minha tia vem me visitar’, foi algumas das respostas que encontrou. Os momentos ruins estavam igualmente relacionados às pessoas: ‘Não gosto de brincar com meu irmão’ ou ‘quando não tem ninguém para brincar comigo’.
“Na conversa com as crianças, observei que os bens materiais em excesso são um desperdício e não há necessidade de dar tantos presentes para as crianças. Deve-se entender o porquê de ela estar pedindo algo. É realmente um desejo pelo objeto ou é um desejo de atenção? Muitas vezes é a maneira que a criança encontra para interagir com o adulto”, alerta a especialista.
Fonte: http://revistacrescer.globo.com/







sábado, 7 de junho de 2014

Bullying contra Alunos com Deficiência

A violência moral e física contra estudantes com necessidades especiais é uma realidade velada. Saiba o que fazer para reverter essa situação.


Um ou mais alunos xingam, agridem fisicamente ou isolam um colega, além de colocar apelidos grosseiros. Esse tipo de perseguição intencional definitivamente não pode ser encarado só como uma brincadeira natural da faixa etária ou como algo banal, a ser ignorado pelo professor. É muito mais sério do que parece. Trata-se de bullying. A situação se torna ainda mais grave quando o alvo é uma criança ou um jovem com algum tipo de deficiência - que nem sempre têm habilidade física ou emocional para lidar com as agressões. 


Tais atitudes costumam ser impulsionadas pela falta de conhecimento sobre as deficiências, sejam elas físicas ou intelectuais, e, em boa parte, pelo preconceito trazido de casa. Em pesquisa recente sobre o tema, realizada com 18 mil estudantes, professores, funcionários e pais, em 501 escolas em todo o Brasil, a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) constatou que 96,5% dos entrevistados admitem o preconceito contra pessoas com deficiência. Colocar em prática ações pedagógicas inclusivas para reverter essa estatística e minar comportamentos violentos e intolerantes é responsabilidade de toda a escola. 



Conversar abertamente sobre a deficiência derruba barreiras

Foto: Marina Piedade
SANTO REMÉDIO A professora Maria de Lourdes falou com toda a turma sobre a deficiência de um colega. Foto: Marina Piedade "Resolvi explicar que o Gabriel sofreu má-formação ainda na barriga da mãe. Falamos sobre isso numa roda de conversa com todos." Maria de Lourdes Neves da Silva, professora da EMEF Professora Eliza Rachel Macedo de Souza, em São Paulo, SP
Quando a professora Maria de Lourdes Neves da Silva, da EMEF Professora Eliza Rachel Macedo de Souza, na capital paulista, recebeu Gabriel**, a reação dos colegas da 1ª série foi excluir o menino - na época com 9 anos de idade - do convívio com a turma. "A fisionomia dele assustava as crianças. Resolvi explicar que o Gabriel sofreu má-formação ainda na barriga da mãe. Falamos sobre isso numa roda de conversa com todos (leia no quadro abaixo outros encaminhamentos para o problema). Eles ficaram curiosos e fizeram perguntas ao colega sobre o cotidiano dele. Depois de tudo esclarecido, os pequenos deixaram de sentir medo", conta. Hoje, com 13 anos, Gabriel continua na escola e estuda na turma da professora Maria do Carmo Fernandes da Silva, que recebe capacitação do Centro de Formação e Acompanhamento à Inclusão (Cefai), da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, e está sempre discutindo a questão com os demais educadores. "A exclusão é uma forma de bullying e deve ser combatida com o trabalho de toda a equipe", afirma. De fato, um bom trabalho para reverter situações de violência passa pela abordagem clara e direta do que é a deficiência. De acordo com a psicóloga Sônia Casarin, diretora do S.O.S. Down - Serviço de Orientação sobre Síndrome de Down, em São Paulo, é normal os alunos reagirem negativamente diante de uma situação desconhecida. Cabe ao professor estabelecer limites para essas reações e buscar erradicá-las não pela imposição, mas por meio da conscientização e do esclarecimento. 


Não se trata de estabelecer vítimas e culpados quando o assunto é o bullying. Isso só reforça uma situação polarizada e não ajuda em nada a resolução dos conflitos. Melhor do que apenas culpar um aluno e vitimizar o outro é desatar os nós da tensão por meio do diálogo. Esse, aliás, deve extrapolar os limites da sala de aula, pois a violência moral nem sempre fica restrita a ela. O Anexo Eustáquio Júnio Matosinhos, ligado à EM Newton Amaral Franco, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, encontrou no diálogo coletivo a solução para uma situação provocada por pais de alunos. Este ano, a escola recebeu uma criança de 4 anos com deficiência intelectual e os pais dos coleguinhas de turma foram até a Secretaria de Educação pedir que o menino fosse transferido. A vice-diretora, Leila Dóris Pires, conta que a solução foi fazer uma reunião com todos eles. "Convidamos o diretor de inclusão da secretaria e um ativista social cadeirante para discutir a questão com esses pais. Muitos nem sabiam o que era esse conceito. A atitude deles foi motivada por total falta de informação e, depois da reunião, a postura mudou."

Seis soluções práticas

- Conversar sobre a deficiência do aluno com todos na presença dele. 
- Adaptar a rotina para facilitar a aprendizagem sempre que necessário. 
- Chamar os pais e a comunidade para falar de bullying e inclusão. 
- Exibir filmes e adotar livros em que personagens com deficiência vivenciam contextos positivos. 
- Focar as habilidades e capacidades de aprendizagem do estudante para integrá-lo à turma. 
- Elaborar com a escola um projeto de ação e prevenção contra o bullying.
Antecipar o que vai ser estudado dá mais segurança ao aluno
Foto: Leonardo Silva
"Passei a adiantar para o José, em cada aula, o conteúdo que seria ensinado na seguinte. Assim, ele descobria antes o que iria aprender." Maria Aparecida de Sousa Silva Sá, professora do CAIC EMEIEF Antônio Tabosa Rodrigues, em Cajazeiras, PB. Foto: Leonardo Silva
No CAIC EMEIEF Antônio Tabosa Rodrigues, em Cajazeiras, a 460 quilômetros de João Pessoa, a solução para vencer o bullying foi investir, sobretudo, na aprendizagem. Ao receber José, um garoto de 12 anos com necessidades educacionais especiais, a professora Maria Aparecida de Sousa Silva Sá passou a conviver com a hostilidade crescente da turma de 6ª série contra ele. "Chamavam o José de doido, o empurravam e o machucavam. Como ele era apegado à rotina, mentiam para ele, dizendo que a aula acabaria mais cedo. Isso o desestabilizava e o fazia chorar", lembra. Percebendo que era importante para o garoto saber como o dia seria encaminhado, a professora Maria Aparecida resolveu mudar: "Passei a adiantar para o José, em cada aula, o conteúdo que seria ensinado na seguinte. Assim, ele descobria antes o que iria aprender". 


Nas aulas seguintes, o aluno, que sempre foi quieto, começou a participar ativamente. Ao notar que ele era capaz de aprender, a turma passou a respeitá-lo. "Fiquei emocionada quando os garotos que o excluíam começaram a chamá-lo para fazer trabalhos em grupo", conta. Depois da intervenção, as agressões cessaram. "O caminho é focar as habilidades e a capacidade de aprender. Quando o aluno participa das aulas e das atividades, exercitando seu papel de aprendiz e contribuindo com o grupo, naturalmente ele é valorizado pela turma. E o bullying, quando não cessa, se reduz drasticamente", analisa Silvana Drago, responsável pela Diretoria de Orientação Técnica - Educação Especial, da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. 



Samara Oliboni, psicóloga e autora de tese de mestrado sobre bullying, diz que é preciso pensar a questão de forma integrada. "O professor deve analisar o meio em que a criança vive, refletir se o projeto pedagógico da escola é inclusivo e repensar até seu próprio comportamento para checar se ele não reforça o preconceito e, consequentemente, o bullying. Se ele olha a criança pelo viés da incapacidade, como pode querer que os alunos ajam de outra forma?", reflete. A violência começa em tirar do aluno com deficiência o direito de ser um participante do processo de aprendizagem. É tarefa dos educadores oferecer um ambiente propício para que todos, especialmente para os que têm deficiência, se desenvolvam. Com respeito e harmonia.

** Os nomes dos alunos foram trocados para preservar a identidade

Fonte: http://silvanapsicopedagoga.blogspot.com.br/2014/05/bullying-contra-alunos-com-deficiencia.html